1 de mai de 2010

E se fosse verdade...



Não tive muita sorte na viagem, agora embrenhando por uma cidade que mal conhecia me senti um pouco sozinha, mesmo assim era melhor do que ficar no pantanal que tinha virado Trindade.
Caraguá era parecido apenas pelo intenso e lindo mar azul, pois, o conforto dos campings, pousadas aconchegantes, bares noturnos, banheiros limpos, ruas asfaltadas, nada lembrava ao imenso barreiro que virou Trindade com a chuva persistente.
Finalmente a chuva deu uma trégua, parei no primeiro bar frente a praia, coloquei a mochila e a sacolinha que embrulhava meu cobertozinho do lado da minha cadeira e pedi algo para comer, estava faminta.
Fiquei analisando o que faria.
O Sol aparecia viril e destemido, empurrando aquelas nuvens negras e sem graça para bem longe dali. O suficiente para animar-me.
Perguntei ao garçom onde encontraria um supermercado e um camping.
Precisava comprar uma barraca antes de qualquer coisa. Eu fui com a cara e a coragem para Trindade, dependendo de espaçozinho na barraca de umas amigas de uma amiga, a pior decisão que eu poderia ter tomado. No fundo eu sabia disso assim que entrei no busão da excursão, senti que tinha sido burrice total e que ao chegar a Trindade perceberia isso. Dito e feito. Deu tudo errado. Não me permitir ficar lamentando por lá, peguei o primeiro ônibus que podia para fora daquele lugar e tive que parar em Caraguá, não dava para ir mais longe, estava tudo bloqueado por causa da chuva. Não me importei com isso o que eu queria era passar uma virada de ano decentemente, longe de barro, chuva, maconha e gente feia. Ninguém merece tanta coisa ruim num lugar só!

Achei o supermercado. Não estava tão cheio. Por sorte encontrei uma barraca de dois lugares e um colchão inflável de solteiro com um preço razoável.
Foi motivo para que meu sorriso brotasse estonteante no meu rosto.
Segui para o camping conforme me orientou o garçom "depois do supermercado vire a direita e segue toda vida...lá você vai encontrar dois campings bons "Universo dos sonhos" e "pequeno encontro". Adorei os nomes.
Após uma caminhada de uns quinze minutos segurando, mochila, barraca, colchão, e cobertozinho debaixo de um Sol que deixou a vergonha de lado e agora surgia impiedoso sobre mim, cheguei ao camping "pequeno encontro". Não estava abarrotado de barracas, tinha um gramado nivelado parecia confortável. Sem hesitar empurrei o portão de madeira e entrei, procurando o responsável com os olhos.
Ele foi mais rápido que eu.
Apresentou gentilmente o camping e claro estranhou que eu estivesse sozinha e por isso garantiu que ficaria em segurança em seu camping, foi bom ouvir isso dele. Combinamos o valor, tudo acertado. Agora barraca ao chão. Ele surgiu novamente sorridente, oferecendo ajuda. Aceitei de imediato, queria terminar logo de montar e passear um pouco pela praia, tomar uma cerveja, vê gente bonita, aliás como ele. Apenas não fiquei olhando-o muito porque tinha aliança gigantesca na sua mão direita, e o que eu menos queria era alguém comprometido.
Em pouco tempo a barraca estava de pé, o colchão cheio, minhas coisas bem guardadinhas dentro dela. Agradeci a ajuda e fui tomar um banho.
Tomei um banho deliciosamente quente, como era gostoso sentir aquelas gotas quentíssimas sob minha pele que ficou debaixo de chuva um dia inteiro.

Coloquei um lindo e novo biquíni de lacinho da cor branca e dourada e um curtíssimo short branco. Calcei minhas hawainas brancos com flores rosas, coloquei algum dinheiro no bolso, não podia deixar de levar meu MP3 e meus óculos, estava pronta para passear e conhecer Caragua. Fechei a barraca e acenei para o rapaz que tinha me ajudado, ele retribuiu com um largo sorriso e me assegurou que tudo estava em boas mãos.

Andei um pouco até alcançar o calçadão da praia. Olhei o mar, ele estava mais azul com o Sol energizando-o, o ar estava gostoso misturando chuva com o ar quente, dando aquela sensação refrescante, sem nada de vento gélido batendo em minhas costas.

Nirvana ecoava nos meus ouvidos. Não me senti tão só.
Era uma aventura e tanto. Eu estava feliz, não podia negar.

Avistei o bar onde tinha pegado as informações sobre o supermercado e o camping, foi um primeiro lugar que me familiarizei. Andei calmamente até ele, olhando as pessoas, admirando os casais, as turmas, as brincadeiras, era estranho estar tão só, mas não era ruim, eu não estava infeliz, porém faltava algo, eu sabia disso, mas preferia não pensar.

Antes que eu entrasse no bar, alguém me chamou. Estranhei e não olhei pra vê se era comigo mesmo. Eu não conhecia ninguém ali. A voz insistiu.
Eu tirei os óculos e olhei pra frente e lá estava ele. Meu coração tenho certeza parou por um segundo, o ar desapareceu, eu pensei que fosse desmaiar, mas busquei forças para controlar toda aquela emoção.
- E ai doida que você tá fazendo aqui? - Falou G. se aproximando de mim. O tampinha vinha acompanhado de um amigo e ele , F..
Sorri pela intimidade que tínhamos.
- A história é longa...muito longa. - Ele me cumprimentou e o amigo fez igual, na vez do F., nossos olhos se cruzaram profundamente.
- Então conta. - Insistia G..
- Bem... - tirei o fone do ouvido e quando tentei enrola-lo no MP3 desconectou-se e o som saiu. Nirvana tocou bem alto, fiquei sem graça e desliguei abruptamente o aparelho.
- Dahora esse som. - Falou F.. Eu sabia que ele amava Nirvana.
- Eu vim com um pessoal numa excursão para Trindade...chegando lá...barreiro, pântano...aquela coisa toda....enjuriei...e vim pra cá...ponto. - Resumi.
Eles me olharam intrigados.
- Você tá sozinha aqui?
- Tô sim...num camping aqui perto.
- Nossa você é mesmo doida. - Gargalhou G..
- É...eu me esforço pra ser normal...mas é cansativo! - Eu estava incomodada com a presença do F., não conseguia dizer nada intelegível.
Eu sentia que ele me olhava, como se quisesse me decifrar, vasculhando cada parte minha. Ainda bem que o Sol estava gritante assim o suor que escorria pelo meu corpo não deletaria minha insegurança e meu pavor por estar tão perto do grande amor da minha vida.
- E você tá indo pra onde?
- Vou tomar uma breja...
- Nesse bar? - Apontou F.. A voz dele me fazia tremer.
- É. - Respondi.
- Então vamos tomar uma com você. - G. e o amigo foram entrando no bar, eu os segui e F. veio logo atras de mim.
Era surreal demais encontrá-lo. Meu coração batia descompassado. Era difícil me segurar, evitar as lágrimas pela emoção de estar ao lado dele.
G. apresentou o amigo, ele era gentil e muito bonito também. Mas F., seus olhos azuis e brilhantes, seu corpo delineado pelo novo vício que havia adotado, muita malhação era admirável, ele era o único sem camisa, para minha alegria.
- Trindade estava tão zoado assim? - Ele puxou assunto comigo. Quase engasguei com a cerveja.
- Estava...terrível...a chuva não deu trégua... aqui também choveu muito não é? - Queria continuar o assunto. Não poderia deixar morrer.
- Sim...não deu nem pra sair de casa...ficamos jogando truco e tomando uns gorós doido lá. - Sorriu.
G. e o amigo de repente saíram de perto de nós. Um desespero louco me invadiu, agora era eu e ele somente sentados a mesa.
- Aonde eles vão? - Perguntou ele.
- Não faço idéia... mas se você quiser ir atrás...vai lá...de boa!
- Vou nada. - Ele respondeu e tomou um gole da cerveja completando o copo em seguida. Senti que ele estava tão nervoso quanto eu. Nosso reencontro depois de três anos, mexia tanto comigo quanto com ele. Agora que as coisas ficavam mais complicadas, tudo que eu falasse ia ser idiotice, o que eu iria dizer? e o silêncio persistindo, se ao menos os outros dois estivessem aqui conosco? seria tão mais fácil falar sobre qualquer coisa, futebol, o clima, sei lá, F. não gostava de futebol, isso eu me lembrava bem.
- Eu posso te fazer uma pergunta? - Respirei aliviada quando ouvi sua pergunta.
- É claro né... - Sorri, tentando disfarçar meu nervosismo, um sorriso torto, forçado não sei como ele não se assustou.
- Por que paramos de ficar?...até hoje não entendo o porque.
Meu Deus! a pergunta da minha vida, a pergunta que eu sempre me fazia, todos os dias, desde a nossa ultima troca de emails, todas as vezes que nos esbarrávamos sem querer pelo prédio da empresa onde trabalhávamos juntos, era a grande pergunta dos meus sonhos e pesadelos.
- Pra te falar a verdade....não sei... - Eu não sabia como responder aquela pergunta, pois era a mesma que eu queria fazer a ele.
- Eu gostava de ficar com você...era bacana...bacana... - Abriu um largo sorriso e encarou-me. Lembrei exatamente o que significava a repetição daquela palavra, quando ficávamos juntos ríamos feito dois bobos e após cada beijo eu sempre dizia "bacana bacana". Eu estava prestes a chorar.
Como eu poderia controlar tamanha emoção?
- Pensei que fosse legal! - Respondi. Relembrando a resposta que ele dava todas as vezes que eu respondia com aquela palavra.
- Vamos dar uma volta na praia? - Sugeriu ele.
Concordei balançando com a cabeça e levantei ao mesmo tempo em que ele.
F. conversou com o garçom e pagou a conta.
Descemos o pequeno lance de escadas, cinco degraus, alcançamos à areia, quente e fofa.
Andávamos lado a lado, eu mal podia acreditar no que acontecia.

- Eu vou entrar no mar. - Antes que ele pudesse falar qualquer coisa corri em direção da água e mergulhei fundo tentando esfriar meu medo e desespero e acalmar meu coração.
Quando emergi do mar, tirando os cabelos do rosto, procurei por ele na areia e não o encontrei. Naquele segundo eu senti que tudo havia sido um sonho e as águas do mar levaram embora. A vontade de chorar veio forte. O anúncio da chuva fez o tempo fechar bruscamente assim como meu coração. As gotas de água caiam feroz sobre mim e meu coração inundava de uma imensurável tristeza.

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